Não sei exatamente quando tudo começou.

A maioria dos atores diz que a vocação vem do berço. Não acredito nisto. Na verdade, todas as crianças, umas mais, outras menos, têm este dom – representar. Vivem de ilusões, criam personagens, experimentando na fantasia a vida real que está por vir.

Minha primeira experiência teatral foi durante as aulas de história do curso científico, no Colégio Andrews, onde debatíamos no palco, como num julgamento de verdade, as reais motivações de vários personagens históricos. Lembro deste professor com carinho. Brilhante, provocador, polêmico, nos instigava, nos fazia pensar. Adam Grzybowski era o seu nome. Quando decidiu abandonar a carreira de professor, tornou-se um dos melhores produtores culturais do Rio de Janeiro. Coincidência? Tenho certeza que não.

Naquele tempo, eu me preparava para a Faculdade de Medicina. Seguiria meus pais na escolha de uma carreira. Cheguei a cursar um período na UFRJ, mas acabei optando pela Psicologia. Acreditava nesta opção. No último ano do curso, no entanto, tudo mudou. Descobri que queria ser ator e fui arrebatado pelo teatro.

Tinha 21 anos de idade. Como explicar a mudança? Não sei. Não me recordo do “momento de decisão”. Só sei que as coisas foram mudando, se encaixando, amadurecendo, ficando claras. Não fui programado para ser ator, não era o que esperavam de mim. Tive de descobrir sozinho, observando, ouvindo e tendo fé, muita fé.

A vontade de construir um centro cultural vem desta época (entre 1986 e 1987). Descobri, junto com o amigo Jorge Monclair, um antigo Instituto de Nutrição, abandonado, no Humaitá. Um espaço enorme, com todas as condições necessárias. Ótima localização, amplo, com sólidas estruturas. Faltava a reforma. Fizemos o projeto e apresentamos para o Secretário de Cultura da época. Admirado com a iniciativa, nos prometeu breve resposta. Esperamos muito e nada. No final de um ano, lemos nos jornais que estava para ser construído, naquele local, o que veio a se chamar Espaço Sérgio Porto. Coincidência?

Nunca desisti. Continuei procurando. Ano após ano. É interessante olhar a cidade com os olhos de quem busca um tesouro. Descobrem-se coisas lindas, cores, estilos, recantos, antigas construções, belíssimas casas. A cada dia se ergue um novo sonho. Construí tantos teatros na minha cabeça, ocupei tantos espaços com as minhas idéias!

Os anos foram passando e minhas convicções se solidificando. Até que, finalmente, em maio de 2001, encontrei um solar em Botafogo! Desde o primeiro instante, assim que cruzei o portão, sabia que a busca havia terminado. A casa tinha o tamanho ideal! Era, de todas, a melhor oportunidade. Não tive duvida. Da primeira visita, até a compra definitiva do imóvel, no dia 4 de julho de 2001, passaram-se apenas algumas semanas. Terminada a busca, já se podia planejar, projetar.

Lembro de passar anos perguntando, questionando, tentando entender como funciona o “tempo de cada coisa”. Em vão. Parece óbvio, mas na prática não é; a vida só começa a responder quando fazemos as escolhas certas.

Sempre desejei ter domínio sobre minha carreira, ser responsável pelo produto cultural. Acredito no ator-empresário, acredito nas pesquisas de grupo, no teatro como força transformadora, com uma finalidade social e educacional. Acredito que, com as pessoas certas nos lugares certos, podemos ter uma política cultural consistente e responsável. Acredito que, também no Brasil, se possa viver de arte e para isto todos devem fazer a sua parte; o artista, o cidadão comum, o Estado. Não existe segredo, existe trabalho. Não existe desculpa, existe vontade política.

Um dos mais completos artistas brasileiros formulou está bela frase, dita no espetáculo de comemoração de seus 80 anos de vida: “Existe algo de heróico e bíblico em se construir um teatro”.

Fora os quinze anos desejando e planejando, foram necessários cinco anos para a construção do Solar de Botafogo. Tenho plena consciência do valor desta realização, mas o que me deixa feliz é perceber que ao dedicar tantos anos a este projeto, estava na verdade fazendo uma viagem de autoconhecimento. Aprende-se muito num canteiro de obras! Todas as fases de uma construção são metáforas de nossas vidas.

Ao erguer este edifício teatral estava, na verdade, me reconstruindo, criando novos alicerces, corrigindo rumos e redefinindo todas as minhas prioridades artísticas. O resultado foi imediato e não poderia ser melhor! Desde a inauguração do Solar tudo mudou em minha vida. Para se ter uma idéia, minha filha nasceu na mesma semana de lançamento do projeto. Não pode ser coincidência. Daí em diante coisas maravilhosas não pararam de acontecer. Venho realizando todos os projetos com os quais sempre sonhei.

Quando entrarem no centro cultural, vocês irão perceber que cada tijolo tem vida própria, que a madeira não para de respirar, que a luz brilha diferente, que a água e o fogo convivem harmoniosamente e que estes e outros tantos detalhes foram idealizados para dar ao público e aos companheiros de ofício as melhores condições de apreciar e viver toda espécie de ARTE.

Leonardo Franco